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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Cinema- Juan Dos Mortos Crítica




         "De pié, famélica legión..." 

              -La Internacional


       Juan dos Mortos (Espanha, Cuba-2011, 92 min)




       

       Por Zaius Primati
       
       Aproveitando o lançamento recente de "Guerra Mundial Z", resolvi ir na contramão da mídia e assistir a essa co-produção Cubano-espanhola de 2011, que já deu as caras no Brasil em alguns festivais nos últimos dois anos, mas só agora é lançada "comercialmente" no Brasil. 
     " Iiiirrrkkkk! Mais um filme de Zumbis!", dirão, com um certo ar entre o blasé e o nojo, os hipsters que frequentam a sala do Guion Center Nova Olaria, em Porto Alegre, onde assisti, sozinho, a uma sessão dessa pérola da sétima arte. 
     Bueno, antes de começar  a falar do filme, cabe aqui um pequeno esclarecimento. Os Zombie movies, já a algum tempo estão deixando o seu gueto trash e migrando para o cinemão.  Já há um subgênero muito bem estabelecido desses filmes, que é o das comédias de Zumbi, tais como "Todo mundo quase morto", "Fido o mascote" e o recente "Cockneys versus Zombies". Acontece que esse subgênero, também possui suas ramificações. Temos a comédia romântica de Zumbis em "Meu namorado é um Zumbi", o bromance  comedy  no já citado "Todo mundo quase morto", a comédia policial zumbi no recente "Zombio 2", de Peter Baiestrorf, e o Zombie mockumentary   em filmes como o Genial Pushin' up Daysies" , cujo diretor e roteirista, Patrick Franklin, estará sendo entrevistado nesse blog em breve. 
       Juan dos mortos inaugura um novo subgênero: a comédia política de desmortos. Só conferir essa bizarra mistura já valeria o ingresso (desde que o cinema fosse confortável, mas isso eu comento depois). Então fui conferir o tal "Juan de los muertos".
           O filme conta as desventuras de Juan (Alexis Diáz Villegas, numa inspirada interpretação) e seus amigos, um bando de vagais, malandros e desocupados (adoro pleonasmos!), moradores de Havana, que vivem de pequenos furtos e golpes diversos. Um belo dia, Havana e, provavelmente, todo o resto da ilha dos irmãos Castro, passa por uma infestação Zumbi. A princípio, Juan e Lázaro, seu melhor amigo, demoram para entender que diabos está acontecendo. Em sua primeira experiência (involuntária) com extermínio de zumbis, eles sofrem pra burro para despachar de vez um casal de velhinhos mortos-vivos, pensando tratar-se de vampiros. Levemos em conta que  eles moram em Cuba e, seja devido ao bloqueio ianque, seja devido à precariedade e censura dos meios de comunicação, eles demoram um certo tempo para entender que raio de monstros são esses, que começam a invadir sua comunidade, mordendo enlouquecidamente tudo que se mexe.  
        Quando a infestação já tomou boa parte de Havana, Juan e seus amigos quase não percebem. Afinal, todo mundo continua andando pelas ruas com a mesma lentidão e desânimo com os quais todos já estavam acostumados, desde o início  da revolução. Os carros continuam caindo aos pedaços e a pintura descascada de boa parte dos prédios de La Habana Vieja já era, por si só, bem pós-apocalíptica, mesmo antes da horda de mortos vivos invadir a ilha. As emissoras do governo falam de dissidentes pagos pelos Estados Unidos. Só que Juan, "um sobrevivente" como ele mesmo se define, não cai nessa.    
   Veterano da guerra de Angola, onde muitos cubanos lutaram ao lado dos angolanos contra os portugueses, um quase marielito dos anos 80, Juan, como de resto praticamente todos os seus conterrâneos, a muito aprendeu a não levar o que o governo diz ao pé da letra.
     E então, como bom latino-americano que se preza, ele resolve lucrar com a crise com toda a sua ginga e malemolência. E abre um negócio de extermínio (ou remoção?) de zumbis, cujo singelo slogan é "Juan de los muertos. Matamos a sus entes queridos". Pronto! Se Nova York tem os caça-fantasmas, "La Habana tambien puede, por supuesto!" Só que, no terceiro mundo, tudo sempre é mais precário. E precariedade é o que não falta na rotina de Juan e seus amigos.
   Daí por diante, o diretor Alejandro Brugués, descarrega sua metralhadora giratória sem dó nem piedade contra os políticos, o povo, as forças de segurança, os dissidentes (sobra até para Yoani Sanchez!) os idosos, as prostitutas, os turistas sexuais espanhóis (que participaram recentemente da Copa das Confederações) e, até, os metrossexuais (isso não é chutar cachorro morto???). 
        Reza a lenda que esse filme foi financiado, em parte, pelo governo cubano. Duvido muito que o Fidel o tenha assistido. Se bobear, eles deram o aval para essa curiosa produção achando que ela teria uma mensagem anti-americana. Ledo engano! Juan e sua turma estão de saco cheio (no caso de Lázaro, literalmente) de Fidel, dos dissidentes, dos ianques, da vizinhança, enfim da P#@$*& que o P@#@$%$!!! O que eles querem não é necessariamente a liberdade. Acima de tudo, eles querem é se dar bem. Me lembra muito um país que eu conhecia faz algumas semanas...
     O filme é uma sucessão de piadas de baixíssimo ph , deliciosamente cínicas e corrosivas, ilustradas por cenas hilárias e geniais como a do primeiro ataque dos exterminadores (com direito a bullet time no estilo "The Matrix") a captura de Juan e sua turma pelas forças de segurança revolucionárias e a alucinada coreografia do "mambo de la muerte", executada magistralmente por Juan e uma "parceira" totalmente fora- da- casinha...
      Mas é na antológica cena final que a alma do filme se descortina. A inesperada decisão de Juan, ao som de  uma versão Punk Rock de "My Way" e a sequência de créditos que se segue, não deixa dúvidas. Como diria Dorothy de "O mágico de Oz": Não existe lugar como o lar. Não importa se ele está de pernas para o ar, cheio de políticos corruptos, balas perdidas, dengue, hospitais caindo aos pedaços, Estádios padrão FIFA construídos com o nosso dinheiro, ou até mesmo, uma horda de mortos-vivos esfomeados. O lar pode ser uma droga. Mas ainda é o lar.


PS: 
   O cine Guion Nova Olaria é um "espetáculo à parte". A última vez em que estive lá foi em 1997, levado por uma ex-namorada riponga para assistir "Vá onde seu coração mandar". É. Eu também acho. Eu mereço! Na ocasião ela achou que devia aumentar seu nível cultural. Nunca mais nos vimos. Espero que ela tenha conseguido.
        O filme que assisti para essa resenha foi exibido numa salinha   com uma tela ridiculamente minúscula, colocada num ângulo no qual você só pode escolher o que entortar: o pescoço ou a coluna (olhe diretamente para frente e não verá nada), e poltronas com a inclinação mais anti-ergonômica que eu já vi. Parecem feitas para que você saia correndo e poupe o projecionista de ter que trabalhar.
Tudo isso, pela módica quantia de 14 pilas! Considerando que a pré-estreia desse filme foi num multiplex com tela de verdade, som digital e poltronas  confortáveis, e pelo preço de sete reais, eu fiz um mal negócio. 
       Esse cinema, como sala de projeção, é uma ótima galeria de arte, onde estão expostas estátuas, quadros, etc. Também vendem-se livros e discos, a preços astronômicos. Pena que a simpatia dos funcionários não seja tão elevada quanto o nível cultural (e o preço) de suas atrações. Mas os hipsters devem gostar. Afinal, o que seria deles se a plebe tivesse acesso ao lazer e à cultura, não é mesmo?
       Abraços simiescos e até o próximo post!
       FUI!!!!


segunda-feira, 1 de julho de 2013

"BATTLESTAR GALACTICA, O FILME", PODE ESTAR MAIS PRÓXIMO DE ACONTECER...




     Cinema - 

  BATTLESTAR GALACTICA - THE MOVIE


   Bryan Singer está revisando o roteiro de   
   Battlestar Galactica. E, após o próximo X- men,
   Pode ser seu próximo projeto. Saiba os motivos...                                                                                                    
        

bryansingerbattlestar.jpg
Bryan Singer e uma cabeça de centurião cilônio da série clássica  "Battlestar Galactica".
Fãs de X-Men reconhecerão a "piada interna".


       Por Zaius Primati

        "Existem aqueles que creem  que a vida aqui, começou,la fora, do outro lado do universo, com tribos de humanos, que podem ter sido os antepassados dos egípcios ou dos toltecas, ou dos maias.E alguns acreditam, que ainda pode existir irmãos do homem, que até mesmo agora, estariam lutando para sobreviver, em algum lugar, além dos céus." 

              Com a narração acima iniciavam os episódios de uma das mais icônicas séries de ficção científica de todos os tempos, Battlestar Galactica, no Brasil, batizada, Galactica, Batalha nas estrelas. A série teve um remake em uma mini-série em 2003 que serviu de piloto para o seriado produzido entre 2004 e 2009.

               Desde o início da década passada, rumores davam como certo um fime de Galactica para o cinema. O projeto acabou virando o remake televisivo produzido e escrito por Ronald Moore, que pouco tempo antes havia "quebrado os pratos" com seus colegas de produção das séries de Star Trek. Com o final do remake, os boatos retornaram. Bryan Singer sempre deixou claro que gostaria de dirigir um filme de BSG, como, chamam os fãs, para o cinema. Entretanto, após os dois primeiros X-´Men, vieram "Superman Returns", "Jack, The Giant Killer "e, agora ele está dirigindo " X-men,  days of a future past". 

              Pois bem, não gosto de dar uma de mãe Diná. Mas há MUITO BONS motivos para crer que Bryan Singer terá, como seu próximo projeto no cinema "Battlestar Galactica- The movie". Em maio passado, visitando a GALACTICON 2013, em Houston, Texas, nosso correspondente,  o Sr. LL Jones, participou de uma coletiva de imprensa na qual as perguntas eram feitas pelos fãs.  Transcrevo abaixo um trecho do artigo de Jones, que estará na integra esta semana neste blog:

"Na manhã seguinte, tivemos uma coletiva de imprensa com os atores. Sim, eu disse  “nós tivemos” porque as perguntas para os atores foram feitas pelos fãs, não pelos jornalistas. De quebra, fomos apresentados a alguns dos atores que não estavam presentes na abertura. Durante essa coletiva, fomos informados por Richard Hatch, o capitão Apollo original, que Bryan Singer está realmente trabalhando no roteiro de um filme de cinema para Galactica, mas seria uma nova releitura da série clássica, sem ligações com as encarnações existentes de BSG."




           O que esse relato tem de tão especial? Bueno, para começar, é o mais recente de toda a WEB  segundo o Google (01/07/2013, 17:50). O Collider e o Den of The Geek,  os  outros sites com notícias mais frescas a respeito,  falam de uma "possibilidade" em fevereiro último.  Além disso,  NENHUM desses sites, na ocasião, confirmou o boato de que seria uma releitura da série clássica. Então temos motivos para nos animar.  Claro, Singer é conhecido por seus impulsos súbitos. Foi dele a decisão não participar, por conflito de agendas, de  X-Men III e se dedicar a "Superman Returns" um projeto que ele "cultivava" há muitos anos. Só que, assim como no caso de Superman, Singer sempre foi também um grande fã das aventuras dos últimos sobreviventes das colônias da humanidade, em sua "fuga da tirania cilônia..."

           O Den of the Geek, aposta que, caso X-men, Days of a future Past seja um grande sucesso de bilheteria, a FOX tentará negociar a volta imediata de Singer para a produção de uma sequência, a ser lançada em 2016. Tudo dependeria do que a Fox teria a lhe oferecer. Considerando que ele já está trabalhando no roteiro e que ele já está bastante avançado, as chances de que vejamos BSG no cinema dentro de dois anos e meio a três anos podem são, no mínimo de 50%. 
           A matéria sobre a visita à GALACTICON 2013 você acompanha na íntegra, aqui, ao longo da semana. Assim que eu postar o que falta da Multiverso Comic Con em Porto Alegre.
            Abraços simiescos!
            Fui!
      

terça-feira, 25 de junho de 2013

Cinema: Superman, o Homem de aço.



   Superman, o homem de aço:  O que a trilha 

sonora do novo filme pode nos dizer sobre ele?







O que a trilha sonora de Hans Zimmer pode nos dizer sobre “Superman, o homem de aço”?
 Por   Zaius Primati

           Neste domingo, 23 de junho, eu estava na Multiverso Comic Con, em Porto Alegre. Um dos painéis era sobre o novo filme do Super Homem, que estreia no Brasil  no próximo dia 13 de Julho.  Após o debate entre os convidados, foi aberto um espaço para perguntas.

         Lógico que, como bom "Old School" nerd que sou, perguntei o que eles achavam da ausência da música John Williams no novo filme. Para minha decepção, praticamente nenhum dos presentes levantou qualquer objeção a esse fato. Perguntados sobre se havia alguém presente que tinha assistido o filme original de Richard Donner no cinema, apenas duas mãos se ergueram. A minha, que assisti o filme com 14 anos de idade e a de Sidney Gusman, da Maurício de Souza Produções, que o assistiu aos 12 anos de idade. Além de mim, apenas ele parecia se lembrar do quão épica era, ou melhor, é, a trilha sonora de John Williams para o super-herói mais famoso das histórias em quadrinhos da DC. Fiquei triste. Senti como se um grande amigo tivesse sido esquecido em seu leito de morte, como se o próprio Kal-El tivesse morrido nas mãos de Apocalipse e todos tivessem superado isso, seguido com suas vidas, e sua estátua, agora, nada mais fosse do que um caríssimo banheiro para pombos, abandonado em algum parque de Metrópolis.

      " Eu estou cansado de ouvir John Williams", disse meu jovem interlocutor. "Eu estou cansado de ter John Williams me dizendo o que sentir a cada cena de um filme", prosseguiu ele.  Eu, não muito gentilmente, confesso, lembrei-o de que eu teria apreciado muito a opinião dele, se essa realmente fosse a sua opinião, e não a de Terry Gillian, que usou exatamente AS MESMAS PALAVRAS ao se referir a John Williams, em dezembro de 2011 (como fã de Williams eu jamais esqueceria isso). Acrescentei que era coerente.  Afinal, se Zack Snyder queria um Superman menos poderoso, mais realista, nada mais apropriado do que uma música menos poderosa.

             Fui embora do evento pensando no que ouvi. Não tenho dúvidas de que será um belo filme, independente da música. Muitos fãs não estão nem aí. Basta qualquer coisa medianamente audível. Ou nem isso. Há até quem sugerisse que um heavy metal daria conta (Higway to Hell cairia como uma luva, sim... para um filme do LOBO). Mas algo naquela trilha me incomodava.

          Então resolvi ouvi-la, despido de meus preconceitos e buscando uma quase impossível avaliação isenta.  Pedi a um maestro amigo meu um artigo sobre isso, mas, como o cara é ocupadíssimo e nunca lê seu FACEBOOK, vocês terão que aceitar a palavra de um trompetista amador que parou na lição número 76 do método Bona de solfejo.

         Música vem do grego, onde significa “a arte ou técnica das musas”. Então, de certo modo, é impossível que alguém não sinta nada ao ouvir um tema musical. Minha filha de cinco anos fica apavorada quando ouve músicas com um tom sinistro ou ameaçador, mesmo sem ter visto os filmes de onde essas músicas vieram. E é para isso que elas servem. Assista um filme iraniano onde só se ouve o vento no microfone, para ver como é bom...

        Dito isto, o que a música dos dois filmes , o "Superman -The Movie" de Donner  e o "Man of  Steel de Snyder", pode nos dizer sobre ambos?

        A poderosa marcha de John Williams é esmagadora e já chega arrebentando:  um ser  com poderes divinos desceu das estrelas e fez da Terra seu lar adotivo, lar que defenderá contra todas as ameaças. Seu tema evoca vividamente o vôo. Como lembrou Sidney Gusman, “você acreditará que homem pode voar”, que é também o slogan da propaganda do filme de 1978.

       A trilha de Zimmer evoca estranheza, mundos alienígenas, emoções violentas, batalhas e por aí vai. Esse clima é criado com o uso de uma percussão que lembra antigos tambores de guerra celtas e escoceses, as notas mais graves do piano e os sons eletrônicos minimalistas que Zimmer tanto ama, como aquele irritante e insano ruído rascante que ele usou para representar o Coringa em “O cavaleiro das trevas”. Afinal, parafraseando Sidney Gusman “Vai ter porrada, nerdaiada!”. E não podia ser diferente. Afinal, Zod é o vilão do filme.

       Então, o que é que essas duas trilhas têm em comum que possa representar o mais poderoso herói da DC comics em toda (ou quase toda, como querem alguns) a sua glória?

         Em recente artigo de Fábio Scrivano  para a Revista da Cultura, Mark Richards, PhD em teoria musical, explica o motivo do tema de Williams ser tão icônico. “O tema é uma marcha, o que sugere força. E a melodia emprega grandes intervalos ascendentes entre as notas, em particular aquele chamado de quinta perfeita, usado para denotar heroísmo, bem como os trompetes da orquestração ". O maestro também destaca o fato da música crescer gradativamente, criando um senso de expectativa, como se a plateia estivesse prestes a presenciar algo extraordinário. E acrescento: é um tema que você sai assoviando do cinema. Tente assoviar o tema de Michael Kamen para “X-Men, o filme”. Conseguiu?  Não? Entendeu qual é a sensação? É por aí.

         Mas, e quanto a “O Homem de aço?”. Desconsiderei os temas de batalha e fui direto para  “What are you going to do when you are not saving the world?”, que sintetiza o espírito do filme. Eu, francamente, não estava interessado em saber, pela música, qual é a sensação de viver em Krypton ou como é trocar socos com o general Zod. Tudo o que eu queria saber é: quem é Kal El? O que faz dele quem ele realmente é? Como ele se sentiria vivendo num mundo de criaturas frágeis como bolhas de sabão e, ainda assim, tentando ajudar e ser aceito por elas, enfim, tentando encontrar seu lugar no mundo, como todos nós.

O tema começa com um piano bastante sutil. Evoca solidão, melancolia, dúvida, perda. Lembra demais aquelas cenas dramáticas sem diálogos, que um outro compositor, Michael Giacchino, sabe ilustrar tão bem com seu piano, e arrancar lágrimas até dos mais frios entre os mortais. Então, a música começa a embalar, com uma percussão que lembra as antigas cadências britânicas de que já falei. É um som tenso, violento. Obviamente, está se referindo aos obstáculos da jornada do herói.
    
         Mas, quando você pensa que a trilha vai descambar para uma música puramente guerreira, acordes de cordas eletrizantes e poderosos metais se insinuam, num crescente, se elevando acima dos tambores da guerra, subindo, cada vez mais, rumo aos céus, rumo à luz, rumo ao sol, fonte dos poderes do herói. Para o alto, e avante! 

         E não me venham com esse papo de que “é um filme mais sombrio, para um público mais adulto”. Se a luz não fosse a essência do herói, a capa de “Os melhores do mundo” não teria Superman cercado de pombos ao amanhecer enquanto Batman está rodeado por morcegos e pela escuridão. E é essa luz, em forma de música, que ouvimos, elevando-se acima da escuridão e da violência da guerra. É a esperança.

      Então, quem é Kal El afinal de contas?

      No filme de 78 o tema de John Williams não deixa dúvida: o destino do último filho de Krypton já estava traçado por Jor El, seu pai biológico. Apesar de todas as suas dúvidas e angústias, Clark Kent desaparece do filme assim que ele encontra as memórias de seu pai, na fortaleza da solidão. O Clark que trabalha no planeta diário é só uma casca para Kal El, quase um alívio cômico. Superman já está nos céus. Cabe a ele descer à terra e salvar os mortais, mesmo que tenha que compartilhar as nossas dores e o nosso sofrimento.

      Em “O homem de aço”, a música de Zimmer parece evocar uma história diferente: Clark não desaparece após deixar a fazenda de sua infância. Ele, como já foi dito por parte da crítica, é “o relutante defensor de nosso planeta”.  Ele não está nos céus. Ele caminha entre nós, mas não é um de nós. E o tema de Zimmer demonstra isso, de modo claro.  

Se o Superman de Williams está descendo à Terra, o de Zimmer, está decolando, se elevando acima de suas dúvidas, suas perdas sua tristeza, rumo à luz e a compreensão, rumo à esperança e,  levando com ele, as esperanças de sua irmã adotiva, a humanidade. Sim, é uma música minimalista, muito menos complexa que a de John Williams. Em termos de evocação heróica e tonalidade épica, apanha até do comparativamente modesto tema que Alan Silvestri compôs para “Capitão América”. Mas transpira humanidade por todos os lados.

Se Williams nos mostrou com música como é o filho de deuses descendo das estrelas, Zimmer nos mostra o que é o filho de dois fazendeiros do Kansas vencendo a si mesmo e ascendendo ao infinito. Perto do final da música, os próprios anjos parecem saudar, com um glorioso e apoteótico coral, o homem que se tornou herói, o mortal que se tornou divino.  Ouvi algumas versões dessa música em que, logo após o ápice do tema, há um anticlímax, digamos, meio frustrante. Apenas para usar uma metáfora inocente (pode haver crianças lendo isso. Li minha primeira resenha aos oito anos...), é como se você estivesse comendo sua torta favorita e, perto da melhor parte do recheio, alguém vem e leva a fatia que você queria. Mas, se isso servir a algum propósito da trama, paciência.

Posso me sentir o maior traidor dizendo isso, mas estou pronto para o novo tema. Sempre haverá um lugar para o extraordinário tema de John Williams em nossos corações. Ele está lá e fez por merecer. Ele é eterno. Mas Zimmer parece ter aprendido que ele jamais poderia “peitar” uma lenda e consegue se safar do dilema indo em outra direção.


E quanto a Kal El / Clark Kent, ele pode ser filho de seres divinos, pode ser mais rápido que uma bala, mais forte que uma locomotiva, invulnerável, indestrutível. Mas nada disso jamais será maior que o amor que ele recebeu de um humilde casal de fazendeiros do Kansas. E é nesse amor, e na compaixão que ele gerou, que residem seus maiores poderes.



Ouça abaixo e compare:

O original...




...E a trilha sonora do novo filme:

http://www.youtube.com/watch?v=y2mb6NXYGm8


sexta-feira, 14 de junho de 2013



“Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam... ”
( Roy Batty, Replicante, em seus momentos finais de vida)

Filmes inacreditáveis - 2 

Frank, o destemido (Fearless Frank, EUA, 1967).

      

        Olá, humanos! Voltei.  Aquela matéria sobre a Galacticon-Comic Palooza 2013 que eu estou prometendo a semanas vai demorar, pois nosso correspondente no evento ainda não acabou de desfazer as malas. Ou algo assim, sei lá. Como dizem que não se deve apressar o "artista", vou deixando de lado a matéria, por enquanto.
         Dias 22 (sábado) e 23 (domingo) de junho, estarei na Multiverso Comic Con em Porto Alegre, cobrindo o evento para posterior publicação de textos, fotos e links de vídeos exclusivos. Aguardem!
           Quando escrevo essas linhas, a bela Angelina  Jolie já tornou pública sua mastectomia radical há mais ou menos duas semanas.  Portadora de uma mutação que aumenta o risco de desenvolver câncer de mama, ela resolveu eliminar essa possibilidade. Apesar de famosa por esquisitices como uma história mal contada sobre relações incestuosas com  o irmão, o hábito de fazer pequenos cortes à faca nos antebraços, e ter sido casada com Billy Bob Thornton, talvez a decisão por essa cirurgia tenha sido a mais racional decisão da bela ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por "Garota Interrompida".
        Mas esquisito mesmo, pra não dizer bizarro foi o filme de estréia do seu Jon, o pai da Angelina. Sim, isso mesmo. Estou falando do "Papi" da Angelina, o Sr. Jon Voight, astro de filmes antológicos como, “Perdidos na noite” (co-estrelado por Dustin Hoffman) e “Conrack” (provavelmente o filme mais exibido nas aulas dos cursos de pedagogia e licenciaturas das universidades brasileiras , nos anos 80 e 90).

        Trata-se de Fearless Frank , corretamente traduzido no Brasil como Frank, o destemido.  Muito antes da Marvel emplacar no cinema com seus blockbusters como "Homem de Ferro", "Capitão América" ou "os vingadores", no longínquo ano de 1967, Philip Kaufman, futuramente conhecido como roteirista de "Caçadores da Arca Perdida" entre vários outros trabalhos, escreveu e dirigiu essa pérola do cinema super-heróico estrelada por Jon Voight no papel título.
       Resolvi falar desse filme pois:

        1-É um filme de grande interesse histórico, que nos remete a uma era em que o blockbuster ainda não tinha sido inventado e o espaço para experimentação (Jack Nicholson e Bob Rafelson que o digam!) ainda era farto em Hollywood. 
            2- É, realmente, um filme inacreditável. A última vez que o vi foi a mais de 30 anos, após ter estreado na Sessão de Gala da Gobo e ser repetido por cinco anos no Corujão. Depois foi parar na Record (antiga, não a do Edir Macedo) e desapareceu. Nem mesmo nos EUA ele é fácil de ser encontrado. Poucos anos atrás, caçadores de raridades viajavam para consegui-lo em VHS...Na França! Reza a lenda que o Netflix americano conseguiu disponibilizá-lo antes mesmo dele ter saído em DVD .
             3-  Esse filme influenciou diretamente outro grande sucesso  mainstream, já nos anos 70 , Perdidos na noite ( Não o programa de TV de Fausto Silva na Band, mas o filme Midnight Cowboy), também estrelado por Voight.
                    4-  Também resolvi falar sobre esse filme, para a molecada com menos de 30 saber quem é esse tiozinho, pai da Angelina, que não se destacou no cinema apenas fazendo o presidente dos Estados Unidos  na série "Transformers", do Michael Bay.
                        5- Como eu já disse, nosso enviado à  
Galacticon-2013 ainda não me passou o artigo dele sobre a convenção de Houston...

        Esse filme é o tipo de coisa que  se poderia esperar se Salvador Dali, Stan Lee e Ed Wood se reunissem para fazer um filme. A trama é deliciosamente trash-besteirol-surrealista:
         O jovem ingênuo, bondoso, burro e caipira Frank (voight) resolve deixar a fazenda de seus pais e o rio de sua juventude, atendendo ao irresistível apelo da aventura e ao desejo de "conquistar a cidade grande". No caminho, ele conhece o narrador do filme (Ken Nordine, narrador de incontáveis filmes e desenhos animados, como a voz original do narrador em George, o rei da Floresta e Supergalo), chamado apenas de "estranho", que está  vagando pela estrada com um uma pesada máquina de escrever (daquelas que fazem o laptop mais pesadão parecer um smartfone), na qual  pretende escrever sobre a vida na cidade grande.





          Mas, ao chegar na cidade, ele conhece a bela, boazuda e um pouco menos burra, Plethora (Monique Van Vooren) teúda e manteúda do chefão do crime conhecido apenas como "O chefe" (Lou Gilbert).



      Mas que Plethora!!!


       Plethora, cujo nome vem do grego e  significa "fartura", "abundância" (quesitos nos  quais a moça honra o nome que tem) vive uma vida infeliz, escravizada pelo Chefe e vigiada o tempo todo por seus "garotos", o Gato, o Rato, Agulhas, e o Nariz de Parafuso. 
Frank (Jon Voight) e Plethora (Monique Van Vooren): um caso muito complicado...


       Frank descobre, da pior maneira, que a vida na cidade grande não é nada fácil. Enciumado, o chefe manda seus garotos "apagarem" Frank. Metralhado, é deixado para morrer num beco sujo, sob a água da chuva que cai, lavando a sujeira das ruas. Não. Não é Taxi Driver, mas passa perto. Frank está morto.

Frank devia perguntar às garotas se elas namoram ou namoraram 
mafiosos, antes de convidá-las para um rolézinho...


       Mas nem tudo está perdido! O cadáver do jovem caipira é encontrado por um bondoso cientista louco (!), conhecido como "O Bom Doutor" (Severn Darden, um dos atores mais Cult dos anos 60 e 70, com papéis  geniais em filmes como "Batalha no Planeta dos macacos" e "A louca missão do Dr. Jones", além de zilhões de participações em séries de TV, até os anos 80). 

O Bom Doutor (Severn Darden) e sua criatura, Frank (Jon Voight): "It's Alive!!!! It's Alive!!!!"


        "O bom doutor" e seu fiel mordomo, Alfred (santa originalidade, Bátima!!!), levam Frank para a sua cobertura, onde o corpo sem vida do ingênuo rapaz é reanimado e convertido numa máquina de combate ao crime, no paladino da justiça, da verdade e dos bons costumes (bom, nem tanto), Frank, o destemido.

Frank (Jon Voight): Repaginado e pronto para o combate.



          Claro, como todo herói que se preza, Frank também tem o seu momento Begins.  Após sua ressurreição  o jovem caipira tem sua indumentária jeca, jogada fora e ganha um terno cinza super style, que lembra muito o que Sean Conery usava nos primeiros filmes de 007, mas com direito a um par de óculos escuros tremendamente cool
      Mas como a capa não faz o herói, além do uniforme, Frank precisa aprender a usar seus novos poderes, que incluem, poder de vôo, super-força, super-agilidade, invulnerabilidade, etiqueta, dicção e gramática perfeitas, e um tremendo sorriso de cafajeste, pra ninguém botar defeito. Tudo muito, mas muito diferente mesmo, do sorriso ingênuo do caipira que faleceu naquele beco imundo. E, como o poder corrompe, com superpoderes então...

Nariz de parafuso (no original, screwnose) mostrando porque ele é o maior arrombador da cidade.

         E os dias passam enquanto o Bom doutor e Alfred, bem como a filha do Bom doutor, sintomaticamente chamada Lois, vão educando e treinando o jovem para realizar grandes feitos. À medida que seu pupilo vai conquistando novas habilidades, o Bom Doutor lhe revela parte dos incríveis segredos dos antigos, responsáveis, entre outras coisas, por seus poderes (que agora, para desepero do Bom Doutor incluem  a capacidade de satisfazer a jovem Lois por meio de sobre-humanas habilidades sexuais) e por sua ambição cada vez maior. Mas o público não fica sabendo de nada, pois o Bom Doutor tem o cuidado de cochichar  tais segredos nos ouvidos de seu pupilo.
Nananina não! Os incríveis segredos dos antigos são apenas para os iniciados...


Lois (Joan darling): cheia de amor pra dar...

        À medida que Frank vai limpando a cidade, também vai maculando sua alma. Ninguém além do Bom Doutor parece ligar muito para suas façanhas, fato que o enfurece e o leva a guerrear contra tudo e todos. 

Frank conquistou o mundo. Mas perdeu sua alma...


Frank, corrompendo (ou sendo corrompido???) pela inocente Lois, que encontrou usos mais práticos para os incríveis segredos dos antigos

        É nesse momento que surge Claude, o irmão gêmeo maligno do Bom Doutor, também interpretado por Darden. Com seu pesado sotaque alemão, sempre vestindo roupas cirúrgicas e com seu fiel pássaro no ombro (33 anos antes de Mickey Rourke e sua cacatua em "Homem de Ferro 2!"). 
Da esquerda para a direita, de pé: O chefe,  e Claude. Sentados: Os garotos e "the bird".


    Caberá a ele, também um herdeiro dos incríveis segredos dos antigos, a tarefa de criar o " Falso Frank " para combater o nosso herói.

     Só que Plethora se recusa a crer que aquele boneco mal costurado (também interpretado por Jon Voight) esteja destinado a ser um novo capanga do chefe e, por meio de seu amor, altera a programação subliminar do Falso Frank, tornando-o bom. Daí por diante o filme adquire contornos um tanto moralistas, mas nada que impeça poderoso o fluxo de piadas, principalmente visuais, cheias de metalinguagem e ironia de baixíssmo Ph.
          O filme tem diversas cenas hilárias, como a coreografia dos capangas para que O chefe desça a a escadaria (e que não dá certo), as divagações filosóficas do Bom Doutor, o primeiro Vôo de Frank, e por aí vai.

         O uso de cenas divididas em quadrados como numa HQ é um dos recursos que fazem dessa comédia underground algo tão original. Antes de Ang Lee usar esse visual em "Hulk" ou do mesmo ter sido feito na série "24 horas", temos um filme de quadrinhos, que sequer era baseado em quadrinhos, lançando mão dessa estética. E, como não podia deixar de ser, esse filme também é fortemente influenciado pelo clima camp da série de TV de Batman, que estava em sua segunda temporada, quando da realização dessa película.

Pois é! Esse "Pow" acontece quando Frank soca os capangas do Chefe. E pensar que Adam West e Jon Voight podiam ter combatido o crime juntos...que glorioso crossover teria sido!

          Confesso que a primeira vez que vi esse filme com som original, fiquei apreensivo. Minhas lembranças eram da TV, da nata da dublagem brasileira dos ano 70, que conferia um ar de malandragem e malemolência que eu não imaginava existitrem no original. E não é que eu queimei a língua? A poderosa e sombria Voz de Ken Nordine,  músico de jazz, narrador de diversos trailers, desenhos animados e séries de TV, empresta uma   imponência "sóbria" que só torna o filme mais hilariamente cult
        E, para concluir, é digno de nota o fato de que Jon Voight, compôs seu Joe Buck, um ingênuo Cowboy que vem para Nova York conquistar a cidade como gigolô em "Perdidos na noite " (Midnight Cowboy, 1969) diretamente da mesma forma que usou para criar o Frank. Quase todos os maneirismos do caipira destinado a se transformar em combatente do crime estão presentes no filme do infeliz prostituto: O sorriso mongo, o sotaque redneck, o jeito de rir balançando a cabeça, o mesmo olhar abestalhado. Tudo igual, exceto pelo fato de que Joe Buck tinha melhor gosto para roupas. Agora me vem a cabeça que , em Kill Bill Parte 1, tem aquele sujeito no hospital, aquele com o Pussy Wagon, que vive dizendo "My name is Buck, I came to F...., bom acho que vocês entenderam onde eu quero chegar. Joe também veio para NY para, digamos, "mandar ver". Terá sido essa a inspiração de Tarantino? Talvez jamais saibamos...
        Um grande abraço, amigos leitores e até breve.
         Vida longa e próspera!
          FUI!!!!!




sexta-feira, 7 de junho de 2013


Cinema



Depois da terra – Crítica
(After Earth, EUA, 2013, 120 min)


Por  Zaius Primati.


                Certa vez, quando eu tinha 25 anos, resolvi  fazer  o tipo de coisa imbecil que só um guri pode fazer sem sentir o quão débil ele está sendo ao fazê-lo:  Fui praticar escalada livre num  paredão de pedra próximo do topo do Itacolomi, próximo de Porto Alegre.  Até aí, nada demais. Só que saí num sábado de manhã (como é bom ser jovem e ter energia para gastar em babaquices) sem avisar a ninguém aonde ia e o que pretendia fazer. Perto do topo, comecei a ser ferroado por marimbondos que tinham colônias espalhadas pelas reentrâncias na rocha . Eu devia estar a uns cinco ou sete metros do trecho mais plano onde podia me abrigar. Naquele  momento, precariamente  aderido à rocha, eu tinha duas escolhas:  Podia  entrar em pânico e morrer por choque anafilático das ferroadas ou pelo salto, que fatalmente quebraria minhas pernas e me deixaria imobilizado, para morrer à míngua,  ou podia buscar uma saída mais racional. Como as duas primeiras opções não me agradaram nem um pouco, optei pela segunda e desci até um ponto que era inclinado o bastante para servir de escorregador. Voltei  para casa com as calças em petição de miséria. Mas voltei.

                Essa pequena história ilustra um pouco sobre o tema central de “Depois da terra” que estreia hoje em circuito nacional:  A conquista de si mesmo, face à adversidade. Ainda que pese sobre o filme a pecha de ser um veículo de promoção de idéias da cientologia, da qual o astro Will Smith é adepto,  saí bastante satisfeito com o filme.

                No início do filme, somos apresentados ao cenário de um pós-apocalipse ambiental que obriga a espécie humana a migrar para um novo lar, o planeta Nova Prime, em outro sistema solar.  Lá chegando, os humanos são obrigados a lutar contra uma raça alien que disputa o planeta e utiliza feras criadas especificamente para farejar o medo dos humanos e caça-los. Durante uma viagem de treinamento, o duro e inflexível General Cypher Raige (Will Smith) e seu filho, o jovem cadete Kitai (Jaden Smith) são forçados a realizar um pouso forçado num mundo selvagem e implacável, que já foi o lar da espécie humana e que agora poderá ser o túmulo de ambos. Para sobreviver, eles precisarão trabalhar juntos e superar suas diferenças. Uma vez que seu pai está  gravemente ferido, caberá ao filho realizar uma jornada pelas selvas e montanhas de um planeta povoado de predadores sobre os quais ele pouco ou nada sabe, além de enfrentar duríssimas condições ambientais.  O Jovem Kitai é obrigado a enfrentar o medo paralisante e o pânico absoluto. As vidas dele e de seu pai dependem disso. A música do quase sempre discreto James Newton Howard, colaborador costumeiro de Shyamalan, só acentua  o sentimento de solidão e insegurança do personagem de Jaden Smith.  O jovem herdeiro de Will Smith já foi acusado pela crítica de ainda precisar de muitas lições de interpretação. Pode até ser. Mas, no contexto do filme, sua insegurança genuína, empresta uma verossimilhança a seu personagem que talvez ele não alcançasse, se fosse um ator experiente. E, como o jovem cadete que é sempre comparado ao pai, um lendário herói de guerra, não deve ser fácil para um guri contracenar com o pai,  que já foi até indicado ao Oscar. E Shyamalan e Will Smith  sabem disso e se aproveitam desse trunfo como ninguém.               

                   O diretor indiano, mais uma vez, nos apresenta personagens em situações limite lutando contra circunstancias bem além de seu controle e tentando fazer o melhor com o que lhes é dado.  Desse modo, a história de pai e filho que caem numa Terra selvagem do futuro funciona bem como drama familiar, suspense e aventura.  Mas é como ficção científica que o último trabalho do diretor Indiano mais surpreende.  

O filme é uma ficção científica de idéias. Shyamalan consegue realizar um manifesto ecológico, exposto de modo puramente  visual. Mas, longe de ser ecochato, ele o faz de um modo muito legal. A cuidadosa direção de arte e desenho de produção constituem um parte orgânica (quase que literalmente) da história. Somos apresentados a uma sociedade do futuro que rompeu radicalmente com a visão de mundo da velha e decadente civilização terrestre. Tudo que aparece na tela, incluindo naves, habitações, vestimentas, equipamentos, etc. parece ser, pelo menos parcialmente, de origem biológica. As tecnologias “verdes” empregadas pela civilização de Nova Prime estão em toda parte. As cidades, ao invés de achatarem  a linha do horizonte, como fazem atualmente, parecem brotar do solo, sem modificar radicalmente o relevo. Fique atento aos destroços (ou cadáver?) da nave. Você vai se surpreender. Claro, há algumas licenças poéticas que não vou revelar para evitar spoilers. Uma ou duas delas poderiam até inviabilizar a história, logo de cara. Mas a abundância de conceitos de ficção científica Hard e Soft, habilmente mesclados com drama, suspense e aventura, certamente vale o ingresso se você for um apreciador  de ficção científica, especialmente, da literatura de SciFi.

Shyamalan tem sido constantemente trolado pelo público e crítica nos últimos anos. Todos esperam reviravoltas extraordinárias como o genial final de “O sexto sentido”, que o catapultou para a fama. Mas o que muitos não enxergam é que essas reviravoltas estão acontecendo, bem ali, diante dos olhos do público. Assim como “Sinais” não era um filme sobre a espécie humana (que é considerada por muitos críticos como “o maior personagem de Ficção científica”), esse filme também não é uma aventura alucinada (ainda que tenha momentos de inegável tensão e suspense). E a reviravolta acontece também. Só que, como em “Sinais” ou “A vila” ,  ela não pode ser percebida com os olhos.

Certa vez, perguntei à uma monja budista de uma sanga (comunidade budista) que frequentei brevemente:  De onde vinha a fé?  Experiência? Treinamento? Condiconamento? Ela me respondeu da seguinte maneira: “Se você se deu ao trabalho de atravessar a cidade para vir aqui, então talvez não precise fazer essa pergunta”. E, de certo modo, assim como a monja, “Depois da Terra”, bem como os outros filmes de Shyamalan, nos convida a responder perguntas sobre nós mesmos.
Já foi dito que Shyamalan é o cineasta da sutileza. Pode ser o caso. E, numa Hollywood onde explosões e perseguições espetaculares, muitas vezes, rendem muito mais bilheterias do que histórias com idéias, é de se agradecer que alguém ainda esteja disposto a ocupar esse nicho.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Filmes tão cult que provavelmente você não acreditará que eles existem. Mas existem sim!


-“Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam... 
( Roy Batty, Replicante, em seus momentos finais de vida)
Filmes inacreditáveis - 1

HEAD (Os Monkees estão soltos, EUA, 1968)





Por Zaius Primati

     Voltei, povo. Felizmente não fui capturado nem forçado a revelar "O" terrível segredo.  Algum dos prezados leitores já leu a HQ dos piratas do Tietê chamada "A terceira margem?" Nela, Batman revela aos piratas que esconde um segredo. E ele é revelado no final. E olha que é um final totalmente inesperado...Nem o Shyamalan faria melhor!!
       E inesperado é também o tema desse post que marca meu retorno da Zona Proibida, após uma semana de ausência. Enquanto nosso correspondente na GLACTICON-2013 e Comic Palooza de Houston organiza seus arquivos da viagem, resolvi inaugurar uma nova seção desse bolg, que é a de filmes raros e/ou incomuns. Afinal se há sebos para livros e até DVDs, também acho que posso falar um pouco a respeito.
       E eu começo com algo totalmente estranho a vocês que têm menos de 35 anos, numa modesta estimativa. Trata-se de um dos mais estranhos filmes já produzidos: HEAD ou, em português, “Os Monkees estão soltos”. Assisti a essa bizarra jóia da sétima arte na antiga sessão das duas. Lembram da borboletinha da vinheta daquela antiga (para não dizer ancestral) sessão de cinema das tardes de meio de semana da Globo? Não? Pois é. Há muito, muito, muito tempo atrás, numa galáxia muito distante, havia uma sessão de cinema de segunda à sexta, onde, pasmem, não eram exibidos filmes com muita confusão para a galerinha, mas sim clássicos do cinema, como os filmes de Tarzan com Johnny Weissmüller, as comédias de Jerry Lewis (até a fase anos 70), épicos como Sete homens e um destino, e por aí vai.
       E Foi numa dessas sessões em que assisti o dito cujo filme dos Monkees. Eu já conhecia a série, reprisada pela RedeTV, na virada do século, sobre os cabeludos e sua banda  de Rock, autores de sucessos como I’m a Believer que é cantada pelo Burro e grande elenco, na cena final do casamento de Shrek e Fiona em “SHREK”.
Por mais engraçada e inovadora em termos de humor (para a época é o que mais havia de parecido com Monthy Python na TV americana) que fosse a série, nada, mas NADA MESMO nesse mundão de Deus, me preparou para o filme que ficou impresso em minhas retinas desde os meus dez anos (ou menos) de idade.
Para começar, o produtor desse filme é ninguém mais ninguém menos do que o senhor “Jack “estranho no ninho” Nicholson. Pois é. Era 1968, época do psicodelismo e da experimentação sensorial, química e erótica e, de algum modo, o diretor de muitos episódios da série de TV do grupo, Bob Rafelson, conseguiu convencer o Jack maluco a investir uns pilas de sua nascente fortuna no projeto de um filme sobre as aventuras daqueles cabeludos que moravam todos juntos (platonicamente) numa casa de praia na Califórnia.
Mas engana-se quem espera ver nesse filme o típico chick flip de verão americano. O filme, até hoje, mal pode ser classificado como musical, apenas devido ao fato de ter algumas canções no meio. Na verdade, nem seus realizadores saberiam como classifica-lo.
Na sequência de abertura, um político enfrenta dificuldades com o microfone durante a inauguração de uma ponte. Antes que ele possa cortar a fita inaugural, os quatro Monkees a atravessam correndo, como se tivessem alcançado uma linha de chegada. Eles estão, obviamente, fugindo. Mas fugindo de quem ou de que? Em meio ao desespero de sua fuga alucinada, os caras pulam da ponte de aço (que lembra a Golden Gate, embora seja menor) nas águas do mar, dezenas de metros abaixo.
O resto do filme, explica, em Flashback, como é que eles vieram parar ali, numa trama psicodélica, que mistura uma série de vinhetas aparentemente não-relacionadas entre si, mas, que no todo, formam uma “trama” de algum tipo.  
Logo no inicio do filme, surge uma tela formada pelas imagens de dezenas de televisores revelando imagens que vão desde a famosíssima cena da guerra do Vietnã, que mostra a sumária execução de um vietcong com um tiro na cabeça, até cenas de documentários sobre a natureza selvagem e clipes com cenas do resto do próprio filme. É então que uma musiquinha, cantada pelos monkees, no estilo daqueles corais de barbeiros da virada do século adverte: “espero que gostem de nossa história, ainda que não tenhamos uma...”
Sob muitos aspectos, essa bizarra trama psicodélica, debochada e não-linear, cheia de cenas sem o menor sentido, falas e ações absurdas, recheada de humor nonsense e niilista pode ter antecipado o advento de fenômenos como Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, “Se beber, não case,” a série LOST (ainda que HEAD seja, de longe, muito mais criativo e engraçado do que a finada série escrita por Damon Lindelof) e o próprio Monthy Python’s Flying Circus ( que só seria exibido na TV britânica no ano seguinte ao lançamento do filme).
       HEAD é uma viagem alucinante e escolher uma cena em particular seria uma injustiça com todas as outras. Mas a minha favorita é essa Daqui:









       Nela, pode-se perceber o uso de um dos recursos mais simples para atrair a atenção de um público: não esclareça nada. Jamais. Jogue um monte de imagens e sons e deixe que eles que se virem tentando encontrar um sentido. E saia correndo, o mais rápido que puder.
Essa verdade, universalmente aceita, já inspirou roteiristas como Damon Lindelof e Didi Mocó Sonrisepe colesterol Novalgino Mufungo. Sim! Didi Mocó já usou essa técnica, no lendário esquete dos trapalhões em que um sujeito passa ao lado de um muro onde se ouvem vozes repetindo “sete, sete, sete...” Quando o incauto sobe o muro para olhar, acaba levando um tapão na cara. Daí o coro de vozes muda para “oito, oito, oito,oito...”

Bob Rafelson e Didi mocó já sabiam o segredo de um bom roteiro, muito antes de Quentin Tarantino e Damon Lindelof. Ei, esperem! Damon Lindelof nunca aprendeu a fazer bons roteiros...


O encontro de Peter com o misterioso guru no meio da sauna a vapor, o hermético, ainda que belo, discurso que se segue, e a conclusão da cena, são momentos antológicos da história do cinema, especialmente quando você tem dez anos e vê um discurso metafísico sendo solenemente proferido por um cara enrolado numa toalha e que fala com a voz do mesmo dublador de David Carradine, em Kung Fu...

Conta-se que Bob Rafelson aprendeu a editar um filme na marra, correndo contra o tempo para lançar HEAD. Antes de sua estréia oficial, o filme foi exibido para uma plateia teste em Los Angeles, sob o curioso nome de Untitled movee. Quando as luzes da sala se acenderam, a audiência estava em estado de choque, principalmente as meninas, que jamais imaginaram ver seus ídolos em tão estranhas (e embaraçosas) situações.

Aparentemente, o resultado da exibição não mudou em nada a determinação da equipe de produção. Mesmo sem recursos de divulgação, eles peitaram a Times Square em Nova Iorque, fazendo eles mesmos, Rafelson e Nicholson, a panfletagem na porta do cinema. Nicholson, num rasgo de genialidade, inventou a publicidade viral, colando furtivamente um flyer do filme nas costas de um policial que patrulhava as imediações. A descoberta da brincadeira pelo oficial de polícia rendeu a Nicholson uma noite no xilindró (que palavra sonora é essa! “Xilindró”. Sempre quis usá-la, de algum modo. Xilindró, Xilindró, Xilindró!). Não sei se foi a primeira, mas, certamente, não seria a última na cadeia para o genial astro de “Um estranho no ninho”, “Chinatown”, “Melhor é impossível”, entre tantos outros.
Que Felini, que Lars Von Trier, que Almodóvar, que Fassbender, que Ang Lee, que nada!  O gênio inconteste da sétima arte será, para sempre, Bob Rafelson. E não é para menos. Reza a lenda que o “roteiro” do filme surgiu de um retiro de fim de semana em uma cabana nas montanhas, misto de sarau literário e ritual xamânico, no qual Bob, Jack e os Monkees, beberam todas, fumaram tudo e consumiram moléculas que a nossa vã filosofia talvez jamais venha a conceber. E o resultado são os 85 minutos mais bizarros e engraçados de toda a história do cinema.


Jack e Bob, naquele histórico fim de semana, rindo à toa do público, da crítica, deles mesmos, daquele tordo (pássaro conhecido em inglês como Robin) que passou voando agora a pouco...


À sua maneira, Rafelson e companhia realizaram o filme mais hermético e cerebral do ano de 1968. E não me venham falar de “2001- Uma Odisséia no espaço”. Mesmo sem ter lido o livro , pode-se entender o filme. E quanto a HEAD? Mesmo que alguém pudesse reproduzir minuciosamente o lendário fim de semana que originou esse clássico (e muita gente vem tentando), duvido que conseguisse chegar aos mesmos resultados.

O filme ainda conta ainda com as memoráveis participações especiais de Victor Mature, como o vilão (?) Big Victor, Teri Garr, Frank Zappa(!), Anette Funicello, a mocinha  da série praia dos biquínis, do Mister Easy Rider, Denis Hopper e do próprio Nicholson, ironicamente, vestido como um dos policiais na cena da ponte (imagino que tenha sido uma homenagem ao tira nova-iorquino vítima de sua pegadinha). 
O engraçado é que vi esse filme incontáveis vezes ao longo dos últimos 38 anos. Mas só na última vez em que o vi é que percebi que aquele policial na cena da ponte, com um sorriso largo como o  do Coringa, era o bom e velho Jack. Como é bom, à essa altura da vida, ainda poder descobrir easter eggs escondidos em filmes antigos!

Run, Monkees! Run!


Diz a Wikipedia, em inglês, que o tema do filme é simplesmente o livre arbítrio, “concebido e editado no estilo de um fluxo de consciência”. Durante boa parte do filme, os Monkees tentam provar a si mesmos que eles são livres e podem fazer qualquer escolha que quiserem. Mas não importa o que façam – Seja detonando propositalmente suas falas, seja se queixando para Nicholson e Rafelson, que estão no set de filmagens, mas fora do enquadramento da câmera, ou atravessando rasgando as paredes dos cenários de papelão, atacando fisicamente sem nenhum motivo e fazendo todos que os que cruzam o seu caminho ficarem putos de ódio contra eles.- No final, eles descobrem que cada palavra, cada ação que eles realizaram foi predeterminada nos mínimos detalhes pelo roteiro do filme no qual eles se encontram e pelo diretor que os está dirigindo. Caramba! Isso sim é que é metalinguagem. E pensar que eu jamais imaginei que algum dia fosse gostar de filmes cabeça...